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quarta-feira, 28 de setembro de 2016

História e Imagens Antigas do QUILOMBO DO JABAQUARA em Santos SP

Da coleção de José Marques Pereira (acervo IHGS), rara imagem fotográfica do Quilombo do Jabaquara  (1890), comunidade liderada por Quintino de Lacerda. 

Chegou a ser considerado o segundo maior do Brasil, abrigando cerca de 10 mil escravos, ficando atrás apenas do Quilombo dos Palmares, liderado por Zumbi, que tinha cerca de 20 mil.

::: Origem :::

Para abrigar a população escrava fugida do interior que chegava a Santos desde 1870, em 1882, numa iniciativa liderada pelos abolicionistas Américo Martins, Xavier Pinheiro e Francisco Martins dos Santos, resolveu-se criar o quilombo, utilizando uma área cedida pelo empresário Mathias Costa. A fim de manter a ordem na comunidade, foi escolhido para a tarefa o recém alforriado Quintino de Lacerda (Natural de Itabaiana - SE, de onde veio como escravo em 1874). Ele ficou tão conhecido e popular, que chegou a se eleger vereador em 1895, e até exerceu a presidência da Câmara.

Com a abolição da escravatura, em 1888, os quilombos perderam a função e sua população se dispersou.


Com 10 mil pessoas, o quilombo foi o segundo maior do Brasil
Foto publicada na edição especial da Revista da Semana/Jornal do Brasil de janeiro de 1902


..:: Quintino de Lacerda e o Quilombo do Jabaquara

(1839 - 1898) Quilombo do Jabaquara que surgiu em meados de 1881 (jabaquara significa yâb-a-quáram, esburacado. (tupi), a sete anos de assinatura da Lei Áurea pela princesa Isabel. Esta foi uma das maiores colônias de fugitivos da história e se situava mais precisamente atrás da atual Santa Casa até a encosta do Morro do Bufo, no trecho compreendido entre o túnel Rubens Ferreira Martins e a subida do Morro da Nova Cintra (Rangel Pestana e da rua Teodoro Sampaio), era o local que recebia os escravos de fazendas do interior de São Paulo e de outras regiões.


A decisão de cessão dos terrenos onde foi instalado o refúgio partiu de uma reunião secreta de santistas abolicionistas. O lugar para se criar o reduto foi os fundos da propriedade de Mathias Costa, ou segundo outros pesquisadores Sr. Benjamin Fontana, em uma extensa área de mata virgem e várzea, cortada por inúmeros riachos. Para manter a ordem entre os abrigados do quilombo, foi apontado o nome de Quintino de Lacerda, ex-escravo de Lacerda Franco que ainda vivia na casa do antigo senhor.

O Quilombo do Jabaquara era formado por uma série de casas unidas umas às outras e precedidas de armazéns, que abasteciam os negros de alimentos e outros produtos. O quilombo se organizava em torno da casa de campo do abolicionista e os quilombolas erguiam seus barracos com dinheiro recolhido entre pessoas de bem e comerciantes de Santos.

A região permaneceu como quilombo alguns anos depois da abolição da escravatura e depois se transformou no que hoje é o bairro do Jabaquara. O Quilombo do Jabaquara, na descrição de Silva Jardim, era verdadeiramente inexpugnável, defendido pelas encostas do morro do Jabaquara e com um único caminho de acesso permanentemente guardados pôr sentinelas de Quintino.

Em 1850 havia 3.189 escravos em Santos, para uma população livre de 3.956 habitantes. Não deixa de ser surpreendente que quinze anos depois já existia uma forte resistência organizada e que três meses antes da abolição do instituto da escravidão no Brasil, em Santos já não houvesse escravos. Tanto que dia 13 de maio de 1888 seguiram-se oito dias de festa populares, comícios, passeatas músicas e dança nas ruas.

Chefe do Quilombo do Jabaquara e primeiro líder político negro de Santos. Nascido em 08 de junho de 1839, natural de Sergipe, Quintino de Lacerda, Ex-escravo de Antônio de Lacerda Franco, que o libertou e de quem se tornou amigo incondicional, tomou-lhe o nome, segundo antigo costume romano, passando a chamar-se Quintino de Lacerda – era, entretanto, mais conhecido por Tintino.

Casa onde viveu Quintino de Lacerda, negro e um dos principais defensores do fim da escravidão
Jornal A Tribuna, em 13 de maio de 2006.

Foi inspetor de quarteirão e administrador da Limpeza Pública Municipal e trabalhou como cozinheiro de Antônio Lacerda Franco e na firma Lacerda & Irmãos. Vereador à Câmara Municipal, em 1895, recebeu consagradora homenagem do povo quando da assinatura da Lei Áurea que, por intermédio de Martim Francisco (3º), lhe entregou relógio de ouro com a seguinte inscrição: "Lei de 13 de maio de 1888. Homenagem popular ao abolicionista Quintino de Lacerda. Santos-1888" Com a abolição, o irrequieto Quintino lança-se à luta política, incorporando, pela primeira vez, os negros ao processo político na cidade.

Organiza e comanda um batalhão na defesa contra uma possível invasão de tropas rebeldes interessadas em depor o Marechal Floriano Peixoto. Recebe, em reconhecimento, o título de Major Honorário da Guarda Nacional, em 1893. Sua eleição para a Câmara municipal, em 1895, se elegeu vereador com o terceiro maior número de votos, porém, faz eclodir uma grande crise política fomentada pelos setores racistas. Ela começa com a negação de sua posse como vereador. A batalha judicial que se segue, chega aos tribunais paulistanos, e termina com a vitória de Quintino.

Prevendo o desfecho em favor do líder negro, o presidente da Câmara, Manoel Maria Tourinho, renunciou ao mandato, seguido pelo vereador Alberto Veiga. O novo presidente José André do Sacramento Macuco, foi obrigado a empossar Quintino, mas renunciou também ao mandato, em seguida, declarando-se "enojado com o que via", segundo Francisco Martins dos Santos ("Histórias de Santos"). Registra o mesmo Historiador que apenas um dos inimigos de Quintino permaneceu na Câmara, embora passasse a não mais comparecer às sessões, Olímpio Lima, diretor do jornal "A Tribuna do Povo". As atividades da Câmara foram suspensas até 1º de junho, quando voltou a funcionar, sob a presidência interina do próprio Quintino. No dia 9, os cargos vagos são preenchidos e, a 16, com base na Lei Eleitoral e devido às ausências em plenário, Quintino propõe e obtém pôr unanimidade, a cassação de Olímpio Lima. O Jornalista, inconformado, voltou à Câmara a 12 de julho, tão logo foi empossado o novo presidente, Antônio Vieira de Figueiredo, mas foi solicitado a retirar-se, já que seu mandato fora cassado. Lima iniciou uma série violenta de ataques contra Quintino em seu jornal, e à própria Câmara, num processo que culminaria pôr fim, com a revogação da Constituição Municipal autônoma, que fora em 15 de novembro de 1894 e durou menos de um ano.

Quintino de Lacerda morreu em 10 de agosto de 1898, de ataque cardíaco, saindo o féretro do Jabaquara, coberto pelo pavilhão nacional, inhumado o corpo no Cemitério do Paquetá, depois de exposto na Igreja Matriz. Deixando três filhos menores. Seu enterro foi acompanhado pôr um grande número de pessoas, um testemunho do reconhecimento de sua importância histórica.

..:: Os vários quilombos no território santista 

O município de Santos tem importante papel na história a Abolição da Escravatura no Brasil, por ter antecipado em muitos anos a libertação dos escravos e acolhido por muito tempo em suas terras os escravos fugidos do Interior paulista, além de incentivar a luta abolicionista. Vários quilombos se formaram no território santista, com o apoio dos habitantes locais, que protagonizaram episódios incomuns na defesa da causa abolicionista, como o papel pioneiro de José Bonifácio e a ação das primeiras mulheres abolicionistas brasileiras.

O texto a seguir foi publicado no jornal santista A Tribuna em 13 de maio de 1999:

Santos também teve sua história de quilombos, de escravos fugidos e entocados. São citados pela História o Quilombo de Pai Felipe, do Garrafão e outros dois sem denominações conhecidas no Vale do Quilombo, região continental da Cidade.

Mapa do Vale dos Quilombos de Santos

Nenhum deles teve as características marcantes do Quilombo dos Palmares, formado na Serra da Barriga, região Norte de Alagoas.

O Quilombo do Jabaquara foi um dos maiores do Brasil e recebeu até 10 mil negros fugidos de fazendas do interior do Estado. Fundado por iniciativa do abolicionista Xavier Pinheiro, em 1882, ficou instalado em terras de Quintino de Lacerda, um negro alforriado. Ocupava um espaço extenso perto do Morro do Bufo, logo após a saída do túnel Rubens Ferreira Martins.

Era formado por uma série de casas unidas umas às outras e precedidas por um armazém, que abastecia os negros de alimentos e outros produtos. A Cidade teve ainda o Quilombo do Pai Felipe, que ocupava a área onde hoje funcionam as oficinas da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), na Vila Mathias. (N.E.: Pai Felipe liderava um bando de escravos fugidos do Engenho Nossa Senhora das Neves, situado em terras continentais. Inicialmente, fixou-se no Jabaquara com seus comandados. Como não quis se submeter a Quintino de Lacerda, estabeleceu-se no sopé do Monte Serrat).

O Quilombo do Garrafão recebeu esse nome em homenagem a José Theodoro Santos Pereira, o Santos Garrafão, que ajudou a manter o do Jabaquara e vivia maritalmente com uma ex-escrava (Brandina), dona de uma pensão na Rua Setentrional (ao lado do atual prédio da Alfândega).

O Vale do Quilombo foi ocupado por negros que se agrupavam em vários locais, independentes uns dos outros, desde a metade do Século 19. As ruínas do Engenho do Quilombo, tombadas em 1974, foram ocupadas por quilombolas.

Antecipado - Segundo a historiadora Wilma Terezinha, Santos se destacou no cenário abolicionista nacional porque dois anos antes da Lei Áurea, assinada pela princesa Isabel em 1888, já não se servia de escravos.

"Os quilombos que existiam aqui serviam para abrigar escravos fugidos de fazendas do Interior. A própria sociedade apoiava o movimento abolicionista e dava cobertura aos foragidos. Havia um pacto de silêncio para proteger os escravos".

Wilma Terezinha conta que, quando a notícia da abolição chegou à Cidade, todos festejaram, de artistas a estudantes, de donas-de-casa a trabalhadores: "Eles festejaram durante oito dias seguidos".

Para o sociólogo Clóvis Moura - citado pelo jornal A Tribuna, em 13 de maio de 1990 -, o Jabaquara serviu para controlar a população escrava, que começou a chegar a Santos desde 1870, em busca de refúgio. A partir desse ano, a santista Amália de Assis Faria passou a receber no quintal de sua casa os primeiros negros fugidos. Por sua atitude, muitos outros quintais serviram de abrigo a escravos.




Para Turismo Histórico e Cultural em Santos e Região


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