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terça-feira, 26 de março de 2019

Jornal A Tribuna: Turismo da Baixada Santista perde R$ 17,6 milhões neste ano

Valor é baseado na revogação, pelo Governo do Estado, de resolução que previa 15% da verba Dadetur para esse fim

Belezas naturais podem ser mais exploradas o ano todo, a região é rica em trilhas e cachoeiras (Rogério Soares/ AT)

Por..:: Eduardo Brandão

A promoção e a capacitação de pessoal para o turismo na Baixada Santista perderão R$ 17,6 milhões neste ano. O valor é referente aos 15% da verba Dadetur, do Estado, flexibilizados para esse fim no governo de Márcio França (PSB). Após a troca de comando no Palácio dos Bandeirantes, o governador João Doria (PSDB) revogou a resolução. O cálculo é do consultor financeiro Rodolfo Amaral.

“Daria para idealizar uma ampla programação integrada, dispondo de recursos até para uma boa difusão”, opina Amaral. 

Com o recuo, a divulgação local volta a depender dos limitados orçamentos municipais para a área e de ações isoladas do setor privado. De acordo com o especialista, o recurso extra poderia ter injetado no setor 63% do volume investido pelas cidades no turismo. Amaral afirma que, no ano passado, houve aporte regional de R$ 27,9 milhões na área.

“Isso é equivalente a apenas 0,39% das despesas totais dos municípios. Por aí, é possível ver a importância que o Poder Público dá ao turismo”.

..:: Lamento

O secretário de Turismo de Santos, Odair Gonzalez, lamenta a revogação da medida. “Essa verba seria importante para a pasta, que não tem orçamento grande para esse fim, na função de divulgar a Cidade. Sem a medida, o Dadetur volta a ter o caráter de obras de infraestrutura e de acesso viários”.

Em conjunto com outros representantes do setor, o titular da pasta afirma ter pedido uma audiência pública com técnicos do Estado para tentar rever a decisão. Sem sucesso.

Em nota, a Secretaria Estadual do Turismo sustenta que a resolução foi revogada porque “contraria a lei e não tinha amparo legal”. O secretário-executivo da pasta, Marcelo Costa, afirma desenvolver “junto com os municípios” projetos regionais que mantenham, incrementem e requalifiquem, de forma criativa, o fluxo turístico. 

“Estamos disponíveis para discutir propostas que criem novos modelos para impulsionar o turismo local ou até reinventar a economia na região”.

Considerado indústria com baixo nível de emissão de poluentes e com alta capacidade de empregar mão de obra, o turismo é setor considerado vital nas finanças brasileiras. Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) indicam que a área é responsável por até 4% das atividades comerciais do País.

Em evento no mês passado, em Itanhaém, o secretário estadual do Turismo, Vinicius Lummertz, avaliou que o segmento manterá uma taxa de crescimento acima do Produto Interno Bruto (PIB, que é a soma das riquezas de uma região) brasileiro. Ele diz que o setor, na América Latina, terá expansão média de 8% neste ano.


Há um roteiro pelo Paquetá, incluindo aula de história no cemitério (Nirley Sena/ AT)

..:: Desafio é expandir o setor fora do verão

Especialistas afirmam ser urgente mapear os atrativos locais e projetar formas para desenvolver o setor turístico. Eles defendem um calendário unificado e novas rotas para alavancar a área, especialmente na baixa temporada. 

“Infelizmente, somos reféns da sazonalidade nos três meses do verão”, cita o presidente do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares da Baixada Santista e Vale do Ribeira (SinHoRes), Heitor Henrique Gonzalez.

Ele explica que, após o verão, os estabelecimentos do setor sentem uma queda de até 90% no faturamento. “Nossa situação é o oposto de Ilhabela e Paraty (RJ), para citar duas cidades próximas. As pessoas reservam (hotéis e pousadas) o ano todo nesses locais, porque existe uma extensa programação nos 12 meses”.

Gonzalez menciona o exemplo de Jericoacoara, antigo vilarejo do Ceará. Após a implantação de um aeroporto, o local se transformou em um dos mais visitados pontos do Nordeste. O prefeito de Guarujá, Válter Suman (PSB), sempre se refere ao equipamento cearense como um modelo para o futuro aeroporto na Base Aérea de Santos. 

..:: Como mudar?

Com base na sua vocação natural, especialistas pedem a união entre as cidades para “sair da caixinha” e atrair visitantes o ano inteiro. O turismólogo Renato Marchesini da Caiçara Expedições indica formatos alternativos e rotas menos comerciais como alguns dos atrativos a serem explorados. Ele é um dos pioneiros na região em turismo comunitário. 

Entre outras formas de lazer, organiza roteiros para quilombos e terreiros de candomblé, comunidades periféricas e atividades náuticas nos rios. “Nosso maior volume de trabalho é fora da temporada. Diversificamos para roteiros menos comerciais e temos uma boa rotatividade”. 

A Baixada Santista tem, ao menos, 15 roteiros de turismo de base comunitária, como em áreas caiçaras e rural. O Sesc, por exemplo, organiza passeios em uma das áreas mais degradadas de Santos: o Paquetá. 

O turista conhece os antigos casarões – hoje transformados em cortiços – e tem uma aula de história ao passar pelos jazigos de personalidades no cemitério mais antigo da Cidade. O local reúne vários túmulos tombados pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Santos (Condepasa), como os do ex-governador Mário Covas, do poeta Vicente de Carvalho e do pintor Benedito Calixto.

Já o jornalista e consultor de finanças públicas Rodolfo Amaral cita outras duas vocações: turismo religioso e voltado aos mais velhos.

“Em nosso calendário turístico, deveríamos explorar esta potencialidade, transformando a região na Capital da Terceira Idade, criando uma semana de atividades turísticas em toda a região”.

Fonte..:: Jornal A Tribuna,  24 de Março de 2019, A3.


Veja abaixo Matéria no Jornal Impresso:


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Para Turismo Receptivo na Baixada Santista





Casamento Praia Baixada Santista: Praias da Baixada Santista podem receber casamentos

Oito cidades oferecem esta opção. Mas é preciso solicitar a autorização com antecedência e pagar as devidas taxas.

Por..:: Vanessa Pimentel


Na Baixada Santista, das nove cidades, oito têm praias e permitem o casamento.
Foto: Rodrigo Montaldi/DL

Já pensou em casar na praia? Na Baixada Santista, das nove cidades, oito têm praias e oferecem esta opção. Mas é preciso solicitar a autorização com antecedência já que as prefeituras exigem o preenchimento de requerimentos e pagamento de taxas, de acordo com o tamanho e a logística do evento. Nem todas as cidades mandaram os valores específicos porque depende da área a ser usada, mas em relação aos preços de salões de festa, as prais regionais podem valer a pena.

Santos é a única cidade que não cobra nada, mas para conseguir realizar o casamento é preciso atender aos critérios estabelecidos no decreto 6889/2014. Como a praia de Santos está em área urbana, o pedido também é submetido a avaliação quanto a segurança, trânsito, impacto ambiental e ao Código de Posturas. Até hoje, segundo a Secult, nunca houve festa de casamento nas praias santistas.

São Vicente informou que o decreto 4760-A autoriza a realização de eventos na areia. Porém, a permissão tem prazo de 90 dias e deve ser requerida 30 dias antes da disponibilização da área desejada.

É preciso protocolar o pedido no Gabinete do Prefeito com os documentos exigidos. Após a aprovação será expedida pelo setor de gestão das praias, em até cinco dias antes do evento, a outorga de uso. No entanto, ela pode ser revogada a qualquer momento pela Prefeitura, caso haja alguma irregularidade. O permissionário ficará responsável pela segurança, limpeza, manutenção, conservação e fiscalização da área.

Em Peruíbe, a pessoa entra com o processo com todas as informações pertinentes, como; estrutura a ser montada, qual praia, números de pessoas envolvidas e a área que ela vai usar. A taxa varia dependendo do metro quadrado utilizado.

Já em Bertioga a solicitação deve ser feita na Sala do Contribuinte. Será emitido um requerimento que deve der encaminhado à Secretaria de Turismo e posteriormente ao Meio Ambiente.

Em Itanhaém é preciso ir à Secretaria de Governo da Prefeitura e solicitar a permissão de uso do solo onde será feito o casamento.

O solicitante receberá um formulário referente ao que se pretende fazer e ter no casamento. Esse formulário gerará uma taxa de R$ 16,90, que deverá ser paga na própria Prefeitura.

Após o pagamento chegará por e-mail um boleto no valor de R$ 750,00; é necessário retornar à Secretaria, que exigirá o comprovante da solicitação de solo juntamente com o formulário e o croqui do casamento. Depois de entregar os documentos, o solicitante receberá uma via protocolada que será utilizada para anexar no site da União.

O pedido deve ser feito de 90 a 120 dias antes da cerimônia, para que dê tempo de realizar os tramites legais. Por fim, com o número da União em mãos, a pessoa terá de apresentá-lo à Secretaria de Governo. Após o pagamento da taxa da União, a pessoa receberá um e-mail autorizando o pedido, que deve ser impresso e colocado na área do evento.

Já em Mongaguá, é preciso pagar as taxas de protocolo no setor de R$ 47,08 e de limpeza da praia R$ 140,49. Não há restrição quanto a horários.

Guarujá também permite a realização de casamentos nas praias, mas estará formalizando, ainda nesta semana, um novo decreto.

Em PG é preciso ir à Secretaria de Urbanismo e apresentar o projeto para cálculo das taxas.

Fonte..:: Diário do Litoral


Para Turismo Receptivo na Baixada Santista



segunda-feira, 25 de março de 2019

Capeba, Caena, Paiparoba e Aguascina: Confira benefícios e propriedades dessa planta

Por..:: Débora Silva

Há milhares de anos, as plantas são utilizadas como aliadas da saúde em diversas culturas ao redor do mundo. Um desses vegetais com propriedades medicinais é a capeba, de nome científico Pothomorphe umbellata, também popularmente conhecida por outros nomes, como caena, paiparoba e aguascina.

A capeba é uma planta brasileira comumente encontrada no sudeste do país, nos estados de Minas Gerais, São Paulo, Espírito Santo e sul da Bahia.


..:: Características
Pertencente à família das Piperaceae, a capeba é um arbusto de um a dois metros de altura, com folhas ovaladas, arredondadas ou em formato de rim; as suas minúsculas flores são distribuídas em espigas.

Foto de..:: Patricia Merante Cardozo
Local: Parque Estadual Xixová Japuí

Os princípios ativos da planta incluem os óleos essenciais, compostos fenólicos, esteroides, mucilagens, chavicina, pariparobina, piperatina, piperina e jamborandina.


..:: Propriedades e benefícios 
As propriedades medicinais da capeba incluem a sua ação antirreumática, anti-inflamatória, antianêmica, antiespasmódica, antianêmica, antigonorreica, colagoga, desobstruente, desopilante do fígado, diurética, emoliente, estomáquica, febrífuga, laxativa, sudorífera, tônica e vermífuga.

Foto de..:: Patricia Merante Cardozo
Local: Parque Estadual Xixová Japuí

Graças à sua propriedade diurética, a planta estimula o funcionamento da bexiga e dos rins, auxiliando na eliminação das toxinas do organismo através da urina. Por esse motivo, a capeba é indicada no tratamento de infecções urinárias, como a cistite, além de combater o inchaço.

👉🌿 Pouca gente sabe deste produto natural que derrete gorduras e manda a fome emocional embora.

A capeba também contém propriedades laxativas, contribuindo para o bom funcionamento do intestino e, por isso, é recomendada para os indivíduos que sofrem com a prisão de ventre. A casca da planta é usada para tratar problemas respiratórios; já outras partes da capeba podem auxiliar no combate a úlceras, doenças gástricas, problemas de fígado, vesícula ou baço.

Foto de..:: Patricia Merante Cardozo
Local: Parque Estadual Xixová Japuí

Graças às suas propriedades medicinais, a capeba ainda pode ajudar no combate à febre, além de regular o ciclo menstrual.


Foto de..:: Patricia Merante Cardozo
Local: Parque Estadual Xixová Japuí

As folhas, a raiz, o caule e as sementes desta planta são usadas na medicina popular no preparo de chás que podem combater os males supracitados.

..:: Como preparar o chá de capeba?
Leve ao fogo uma chaleira contendo 750ml de água e 30g da planta. Deixe ferver pelo período de 10 minutos, desligue o fogo e abafe. Espere amornar e beba uma xícara deste chá três vezes ao dia, preferencialmente antes das refeições principais.

..:: Contraindicações e efeitos colaterais
O uso da capeba é contraindicado para gestantes e lactantes. Os efeitos colaterais podem incluir diarreia, vômitos, náuseas, febre, cólicas, tremores, alergias e dores de cabeça. Lembre-se que o uso de plantas medicinais também deve ser feito apenas sob orientação de um especialista.

Fonte..:: Remédio Caseiro


quinta-feira, 21 de março de 2019

Foto Antiga Santos: Ponta da Praia 1950 - Pescadores

PONTA DA PRAIA (c. 1950)

Foto de Boris Kauffmann, mostra o bairro da Ponta da Praia, ainda com características visuais caiçaras, com vários barcos de madeira à beira mar. A imagem é da década de 1950, quando o local ainda abrigava moradias de pescadores e algumas chácaras.


Horta Comunitária Bons Frutos: Inauguração das melhorias para as visitas de turismo comunitário


quarta-feira, 20 de março de 2019

Arqueologia: Pontas de Flecha pré-históricas de São Paulo são diferentes dos artefatos sulinos

As pontas de flecha ou de lança pré-históricas foram encontradas em maior concentração do interior de São Paulo até o Rio Grande do Sul. Independente do local, todos os projéteis de pedra resgatados nessa vasta área costumam ser rotulados como pertencentes à tradição Umbu, uma cultura arqueológica associada a antigos caçadores-coletores. Porém, o estudo mostra que as pontas encontradas no estado de São Paulo são diferentes das do Sul. Pode ser que essas diferenças estejam relacionadas com distintas culturas.



Fonte..:: Pesquisa Fapesp


Pontas de um passado remoto

Projéteis de pedra do interior paulista de até 10 mil anos apresentam estilo diferente dos artefatos pré-históricos encontrados no Sul

Projéteis de Rio Claro (esquerda) e pontas do sul do país (direita)

As pontas líticas de flecha ou de lança oriundas da Pré-história nacional estão concentradas na porção do território brasileiro que se estende do Rio Grande do Sul até a região de Rio Claro, no interior paulista. Independentemente de seu local de origem e de terem sido confeccionados cerca de 500 anos atrás, pouco antes da chegada do conquistador europeu, ou há longínquos 10 milênios, todos os projéteis de pedra resgatados nessa vasta área costumam ser rotulados como pertencentes à tradição Umbu, uma cultura arqueológica associada a antigos caçadores-coletores. No entanto, um estudo comparativo das características morfológicas (físicas) de mais de mil pontas provenientes dos três estados do Sul e de São Paulo rechaça essa classificação, considerada simplista demais, e fornece indícios de que os projéteis encontrados no interior paulista são diferentes dos resgatados na parte mais meridional do país.

A maioria das pontas achadas nos arredores de Rio Claro, onde existe grande quantidade desses artefatos no interior paulista, tem o pedúnculo — cabo ou haste situada no lado oposto ao da superfície cortante — maior e mais afilado, com contornos similares aos da letra V, do que o das encontradas no Sul, especialmente no Rio Grande do Sul. Os projéteis da porção austral do país tendem a apresentar essa parte com um formato bifurcado, semelhante a um pequeno rabo de peixe. Em São Paulo não há pontas desse tipo. “A função das pontas em ambas as regiões era a mesma, eram uma arma de caça”, afirma a arqueóloga Mercedes Okumura, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (Mae-Usp), autora do estudo, que contou com uma bolsa de pós-doutorado do CNPq no início de suas pesquisas e hoje recebe apoio da FAPESP. “No entanto acreditamos que as formas do pedúnculo podem ser interpretadas como marcadores culturais, relacionados a grupos ou tribos distintas.”

Se o design das pontas de pedra do Sul era diferente do das de São Paulo, é possível que os habitantes das duas áreas também não fossem exatamente iguais pelo menos do ponto de vista cultural. Os artefatos dos antigos caçadores-coletores do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina até poderiam ser rotulados como exemplares da tradição Umbu, mas o mesmo não se pode dizer dos projéteis encontrados no interior paulista, segundo a arqueóloga. Eles podem ter pertencido a um grupo com hábitos e tecnologia lítica distintos dos da tradição Umbu, dominante na ponta meridional do Brasil. “As pontas são um artefato complexo, que contêm informações sobre quem as fez”, diz o arqueólogo Astolfo Araujo, também do Mae-USP, que participa dos estudos de Mercedes. “Sua construção demanda muitas etapas e um longo processo de transmissão cultural. Aprender a fazer uma ponta demora anos.”

De acordo com dados de Mercedes, o corpo das pontas do Sul e de São Paulo apresenta tamanho semelhante. Em média, tem entre 2,5 e 3 centímetros. Essa medida leva em conta apenas a parte perfurante do projétil, sem incluir as dimensões do pendúculo. A diferença mesmo entre as pontas das duas regiões aparece quando se olha a forma e as dimensões do pedúnculo. Nas do Sul, a haste que serve de base para o lado cortante do artefato tende a medir entre 0,9 e 1,1 centímetro. Nas de São Paulo, apresenta quase o dobro de tamanho médio, por volta de 1,7 centímetro — e nunca é bifurcada, quase sempre é afilada. Além de estudar pontas da coleção Plynio Ayrosa do Mae, Mercedes visitou o acervo de outras nove universidades e também de colecionadores particulares do Sul e de São Paulo durante o ano passado para realizar o trabalho.

Graduada em biologia e com experiência na análise dos traços anatômicos de crânios e ossos da Pré-história nacional, a pesquisadora adaptou métodos estatísticos, quantitativos, já comumente empregados em estudos de evolução humana, em seu trabalho com os projéteis de pedra. “Como há poucos esqueletos humanos antigos encontrados no Sul e em São Paulo, resolvi estudar arfetados formais que esses povos faziam, como as pontas de pedra”, explica Mercedes. Munida de um paquímetro, instrumento utilizado para aferir com precisão pequenas distâncias, registrou as dimensões de 1.102 pontas. Foram medidos 131 projéteis de São Paulo, 170 do Paraná, 258 de Santa Catarina e 543 do Rio Grande do Sul. Os artefatos analisados provinham de 10 zonas com sítios arqueológicos: cinco em terras gaúchas (Maquiné, Santo Antônio, Caí, Ivoti e Taquari), três catarinenses (Taió, Urussanga e Santa Rosa), uma paranaense (Reserva) e uma paulista (Rio Claro).

..:: Quatro medidas
Em seu primeiro trabalho com o conjunto de pontas, cujos resultados já foram apresentados em congressos e serão relatados num artigo a ser submetido a uma revista científica, a arqueóloga comparou especificamente quatro medidas: o comprimento da lâmina, o tamanho do pedúnculo, a largura do pescoço (região em que termina a parte cortante e começa o cabo) e a espessura da flecha na altura da metade de seu corpo. De posse desses dados, ela usou métodos estatísticos e programas de computador para comparar as medidas e averiguar se elas poderiam ser associadas a apenas uma mesma cultura material, à  tradição Umbu, ou a mais de uma forma de produzir projéteis. É uma estratégia semelhante à dos arqueólogos que quantificam o tamanho e a forma de um crânio para tentar inferir os traços físicos ou até a etnia do dono da antiga ossada, se era, por exemplo, um africano ou um tipo mais asiático.

Azeite de Leos

Das quatro medidas escolhidas, somente o tamanho do pedúnculo apresentou discrepâncias estatisticamente relevantes. Em seis das nove áreas da Região Sul havia predominância de cabinhos bifurcados. Rio Claro, onde esses artefatos eram confeccionados a partir de silexito e em menor escala de quartzo, se mostrou um caso à parte, com suas pontas afiladas. “Não se pode dizer que os projéteis do Sul sejam todos iguais, mas eles certamente formam um grupo distinto dos de Rio Claro”, afirma Mercedes. As pontas do interior paulista costumam ser classificadas como sendo da fase Rio Claro, que, segundo alguns autores contemporâneos,  seria um sotaque regional no âmbito da língua-mãe, uma manifestação local dentro da tradição Umbu. Mercedes e Araujo suspeitam que as pontas de São Paulo sejam mais do que isso. Elas pertenceriam a um outro idioma lítico, a uma tradição própria, tendo sido talvez lapidadas por um grupo culturalmente distinto dos antigos habitantes do Sul. Os arqueólogos da USP consideram pouco provável que apenas uma tradição cultural tenha se mantido por tanto tempo (cerca de 10 mil anos) numa faixa de terra tão longa como a que vai do Sul até o interior paulista (do Chuí até Rio Claro são 1.800 quilômetros). “Pode ter havido duas populações de caçadores-coletores distintas, uma na parte meridional do país e outra aqui”, comenta Araujo. “Ou a de São Paulo pode ser culturalmente derivada da do Sul, onde há um grande número de projéteis.”

Para o arqueólogo Tom Miller, professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) que estudou as pontas líticas do interior paulista na década de 1970, a hipótese de que os projéteis de Rio Claro pertençam a uma cultura distinta da presente no Sul faz sentido. “A tentativa de classificar o material de Rio Claro como Umbu foi um engano desde o começo”, afirma Miller. “As formas distintas de pedúnculo podem representar uma diferença de estilo ou de encabamento (de colocar um cabo num artefato).” Ele no entanto acredita que as tradições culturais não podem ser definidas somente a partir do estudo de um tipo de artefato, como as pontas encontradas numa região, mas sim por meio de análises mais complexas, que levem também em conta a tecnologia e as estratégias de adaptação adotadas pelos antigos povos de uma área.

Abrigo na região gaúcha de Caí: estado sulino concentra boa parte das pontas da tradição Umbu
Adriana Schmidt Dias

O argentino Marcelo Cardillo, arqueó-logo da Universidade de Buenos Aires, que também realiza análises semelhantes às da pesquisadora da USP com projéteis líticos da Patagônia e da região de Puna, segue uma linha de raciocínio não muito diferente da de Miller. Embora reconheça não ser um especialista em arqueologia brasileira, argumenta que a análise estatística das medições feitas nas pontas do Sul e de São Paulo tornam as conclusões de Mercedes plausíveis. “É bastante possível que o estilo ou o desenho dos projéteis apresentem variações ao longo do tempo e do espaço”, afirma Cardillo, um crítico do próprio conceito de tradição. “Isso pode ocorrer por causas muito distintas, relacionadas, por exemplo, a fatores ambientais ou a processos aleatórios, como deriva cultural, ou à disponibilidade de diferentes materiais num lugar ou época.”

Objetos cunhados pela mão do homem, a chamada cultura material, contam algo sobre quem os confeccionou, especialmente quando são o único ou o principal vestígio arqueológico associado a um povo ou sociedade desaparecida. Essa situação não ocorre apenas no Sul do país e em São Paulo. Nos Estados Unidos, a famosa cultura Clovis, que teria surgido há cerca de 13 mil anos e foi considerada durante muito tempo como a mais antiga das Américas (hoje essa hipótese é bastante contestada), é conhecida fundamentalmente por meio das pontas de pedra resgatadas em localidades do estado do Novo México. Esqueletos humanos associados à cultura Clovis nunca foram encontrados. Nem por isso a importância dessa antiga ocupação deixou de ser reconhecida, com suas pontas alongadas, que, em alguns casos, lembram uma fina taça de champanhe de ponta-cabeça.

..:: O Projeto
Métodos estatísticos aplicados à questão da caracterização de indústrias líticas paleoíndias: estudos de caso no Sudeste e Sul do Brasil (nº 10/06453-9); Modalidade Bolsa Regular de Pós-doutorado; Co­or­de­na­dor Astolfo Araujo – MAE-USP; Investimento R$ 153.974,88 (FAPESP).

Fonte..:: Pesquisa Fapesp

ARQUEOLOGIA: Evidências indicam populações humanas em todo o Brasil há 10 mil anos

Ocupação do “Brasil” primordial

Evidências indicam que havia populações de caçadores-coletores em todas as grandes regiões do território nacional cerca de 10 mil anos atrás


Há 10.500 anos praticamente todo o território que viria a ser o Brasil já era habitado por expressivas populações de caçadores-coletores. Da Amazônia aos Pampas, passando pelas áreas hoje ocupadas pelo Cerrado, Caatinga e Pantanal, os principais biomas brasileiros exibem vestígios de presença humana que remontam a pelo menos 10 milênios. A única exceção parece ser a costa atlântica, onde os registros mais antigos e confiáveis sugerem que talvez o Homo sapiens tenha precisado de mais uns 500 ou mil anos para atingir a borda leste do continente. Também por volta de 10 mil anos atrás três grandes tradições culturais associadas à fabricação de artefatos de pedra, como raspadores, lascas e pontas de flecha, tinham igualmente se estabelecido na metade leste da América do Sul. A tradição Umbu se fazia presente no Sul; Lagoa Santa estava no atual território mineiro; e Itaparica ocupava partes do atual Nordeste e Centro-Oeste. Apesar de esquemático e simplificado, esse cenário sobre a colonização inicial do Brasil condensa informações e interpretações derivadas de boa parte dos achados arqueológicos das últimas três décadas.

Esse quadro sugere que a chegada dos humanos modernos às mais diversas latitudes do território nacional deve ter sido um processo antigo e complexo, talvez por meio de múltiplas rotas. Ocupar uma área continental como a do Brasil e desenvolver três tipos de cultura material distintas leva tempo, provavelmente alguns milhares de anos. “Devem ter ocorrido múltiplas migrações em direção ao território do país, a mais antiga delas antes da ocorrência do último máximo glacial [a mais recente Era do Gelo, cujo pico se deu há cerca de 20 mil anos]”, diz o arqueólogo Astolfo Araujo, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP), que publicou um artigo científico sobre o tema em abril de 2015 no periódico Anais da Academia Brasileira de Ciências.

Há algumas décadas, era vista com extrema desconfiança a datação de sítios arqueológicos com idade próxima ou superior aos 13 mil anos da chamada cultura de Clóvis, lugar no estado norte-americano do Novo México onde foram encontradas as famosas pontas de flecha bifaciais associadas a caçadores-coletores. Durante a maior parte do século passado, o povo de Clóvis foi considerado o mais antigo a ocupar as Américas. Hoje a barreira dos 13 mil anos já foi igualada ou ultrapassada por sítios arqueológicos do continente, tanto acima como abaixo do Equador. Esse é caso de Monte Verde, no Chile, de Huaca Prieta, no Peru, das cavernas Paisley, no estado norte-americano do Oregon, da Ilha Triquet, na Colúmbia Britânica (Canadá), além de alguns sítios no Brasil. “Não se trata de dar foco apenas no momento em que houve o povoamento inicial do homem no território brasileiro, mas em como ele se deu em uma área tão enorme, com paisagens tão diferentes”, comenta a arqueóloga Adriana Schmidt Dias, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

..:: Pelos rios 

Se, em sua jornada pelo continente americano, o Homo sapiens migrou do hemisfério Norte para o Sul, ele deve ter passado, e provavelmente se fixado, em algum ponto da América Central antes de chegar à Amazônia ou aos Andes. “O problema é que ainda não encontramos no Panamá, que deve ter feito parte dessa rota interna de povoamento, sítios arqueológicos mais velhos do que os da América do Sul”, diz o arqueólogo Eduardo Góes Neves, também do MAE-USP. Mas, uma vez que tenha fincado pé na América do Sul, o homem provavelmente seguiu por águas fluviais para chegar ao Brasil profundo. Essa hipótese é corroborada pelo número expressivo de sítios arqueológicos localizados em áreas vizinhas a grandes rios que cruzam o território nacional, como o Amazonas e o Solimões, na Amazônia, o São Francisco, no Nordeste, e o Paraná e o Uruguai, no Sul. “As rotas de colonização por rios são sempre a opção lembrada”, pondera o arqueólogo e antropólogo Walter Neves, do Instituto de Biociências da USP.


Um dos lugares da pré-história mais antigos do Brasil, com uma primeira ocupação datada em cerca de 25 mil anos e outra entre 12 mil e 2 mil anos atrás, é o abrigo Santa Elina, em Mato Grosso, situado a 30 quilômetros do rio Cuiabá, um importante afluente da bacia do Paraná-Paraguai. Os sítios da serra da Capivara, no Piauí, onde a presença humana possivelmente chegue a 20 mil anos, estão a cerca de 100 quilômetros do rio São Francisco. Em Uruguaiana, no extremo oeste do Rio Grande do Sul, bem na fronteira com a Argentina, o sítio Laranjito, que apresenta indústria lítica com idade datada em aproximadamente 12 mil anos, fica às margens do lado brasileiro do rio Uruguai.

Em artigo publicado no início de 2015 na Revista de Estudos Avançados, da USP, Adriana Schmidt Dias e o arqueólogo Lucas Bueno, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), defenderam a existência de três grandes rotas fluviais que poderiam ter sido usadas pelos povos pré-históricos para entrar no território nacional. Uma delas seria via bacia amazônica, outra pelo rio São Francisco e uma terceira explorando as águas da bacia do Prata. Esse trabalho deriva em grande parte de dados compilados e interpretações apresentados em um estudo anterior, publicado em meados de 2013 na revista científica Quaternary International, pela dupla brasileira juntamente com o arqueólogo inglês James Steele, do University College London (UCL).

Pintura rupestre no sítio Pedra Pintada, em Monte Alegre, 
no Pará, onde a presença humana remonta a de 12 mil anos - Por Claide Moraes

Nesse artigo de revisão, o trio de pesquisadores analisou os resultados de datações feitas a partir de vestígios arqueológicos provenientes de 90 sítios pré-históricos do país, cujas informações foram divulgadas em artigos científicos publicados desde a segunda metade dos anos 1980. As idades foram obtidas pelo emprego do método do carbono 14 em um conjunto variado de vestígios arqueológicos, como ossos, dentes e cabelos humanos, artefatos de pedra, pontas de lança e muitos restos de fogueiras (aparentemente feitas pelo homem). O artigo interpretou como confiáveis 277 datações que haviam chegado a idades entre 15.500 e 8.900 anos (ver mapa). “Desconsideramos 63 datações que, por algum motivo, apresentavam um grau de incerteza maior sobre sua cronologia”, explica Adriana. Também os resultados das datações com mais de 15 mil anos de idade, que costumam ser alvo de questionamentos e polêmicas – como algumas obtidas para certos sítios da serra da Capivara ou em Santa Elina –, não foram levados em conta.

Entre as datações analisadas no trabalho, nove apresentavam resultados entre 15.500 e 12.800 anos. Essas foram as mais antigas da amostra, obtidas a partir de material de cinco sítios. Dois desses lugares, a Toca do Sítio do Meio e a Toca do Gordo do Garrincho, ficam na serra da Capivara. Outros dois se situam no norte de Minas Gerais: Lapa do Boquete, sítio que fica no vale do rio Peruaçu, hoje área de intersecção entre os biomas do Cerrado e da Caatinga; e Lapa do Dragão, na divisa com a Bahia. O quinto sítio é a caverna da Pedra Pintada, em Monte Alegre, nos arredores de Santarém, no norte do Pará, da qual se vê o rio Amazonas.

Esse lugar da pré-história nacional foi notícia no mundo todo no início da década de 1990 quando a arqueóloga norte-americana Anna Roosevelt, bisneta do ex-presidente dos Estados Unidos Theodore Roosevelt, datou pela primeira vez suas pinturas rupestres em cerca de 11 mil anos. Agora Pedra Pintada – cujo material coletado pela pesquisadora não ficou no Brasil – está sendo novamente estudada pelo arqueólogo Claide Moraes, da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), de Santarém. “Temos cinco novas datações de carvões e sementes carbonizadas provenientes de fogueiras feitas provavelmente por humanos que deram cerca de 12 mil anos”, diz Moraes.

Depois desses cinco sítios mais antigos da amostra, o trabalho publicado na Quaternary International destaca os locais com idade entre 12.800 e 11.400 anos. Nesse período da pré-história nacional, a distribuição geográfica da presença humana começa a se ampliar. Além de incluir o norte de Minas, o Piauí e a Amazônia, os sítios desse período abrangem localidades do extremo sul do país, na divisa com o Uruguai, e do Centro-Oeste, como o de Santa Elina, em Mato Grosso. Para esse intervalo de tempo, o número de datações aumenta para 56 e o de sítios para 29.

Entre 11.400 e 10.200 anos, o estudo contabilizou 65 datações relacionadas a 46 sítios, agora já espalhados literalmente de norte a sul pelo atual território nacional. “Por volta de 10.500 anos atrás, o número de sítios arqueológicos cresce em todas as regiões”, comenta Adriana. Na região de Serranópolis, no sudoeste de Goiás, por exemplo, são conhecidos mais de 40 sítios com material lítico associado à tradição cultural Itaparica. Eles exibem pinturas rupestres e se situam em abrigos rochosos ao longo do rio Verde, um afluente do rio Paranaíba. Sua idade varia entre 10.700 e 8.400 anos. Até o estado de São Paulo, considerado um vazio arqueológico durante um bom tempo, contribui com dois sítios desse período: Batatal I e Capelinha, ambos situados no Vale do Ribeira, em áreas em que os habitantes pré-históricos fizeram uma espécie de cemitério à beira de rios, os chamados sambaquis fluviais. Um crânio humano de quase 10 mil anos, apelidado de Luzio, foi encontrado em meados dos anos 2000 em Capelinha. Esse sítio é considerado o mais antigo em área de Mata Atlântica a apresentar registros de presença humana. Encontrar sítios arqueológicos em áreas próximas ou vizinhas ao litoral é sempre um desafio. O nível do mar variou ao longo do tempo e é possível que antigos assentamentos estejam hoje em zonas submersas.

..:: Pontas de flecha

As pontas de flecha contam uma história semelhante sobre o povoamento inicial do território brasileiro. Aqui, esse tipo de vestígio da cultura material de povos pré-históricos é considerado relativamente raro. Pelo menos três sítios arqueológicos associados a duas tradições culturais distintas legaram exemplares desses artefatos líticos com idade superior a 10 mil anos. Pontas de projéteis da tradição Umbu com 10 milênios de idade foram encontradas no sítio de Garivaldino, no centro do Rio Grande do Sul, e em Tunas, no Paraná. Na gruta do Marinheiro, em Minas Gerais, também foram achados artefatos líticos desse tipo, igualmente antigos, mas cuja filiação cultural é alvo de debates.


Alguns arqueólogos consideram as pontas do sítio mineiro como da tradição Umbu, enquanto outros ainda não sabem como classificá-las. “As pontas da gruta do Marinheiro são totalmente diferentes das do Sul. Não são da tradição Lagoa Santa nem da Umbu. E muito menos da Itaparica, que, aliás, não produzia pontas”, afirma a arqueóloga Mercedes Okumura, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (MN-UFRJ), uma das poucas pesquisadoras do país que estudam esse tipo de artefato lítico. “A teoria nos diz que para surgir essa variabilidade no modo de fazer pontas é preciso, entre outros fatores, tempo suficiente para que essa diversidade se desenvolva. De forma simplificada, é um processo semelhante ao da evolução biológica.”

Não se pode descartar a possibilidade de ter ocorrido a migração de um grupo pré-histórico que estava em uma região, e já sabia fazer pontas de flecha com certas características, para uma área onde não havia esse tipo de conhecimento. Em tese, essa migração encurtaria o tempo necessário para que um grupo aprendesse a fazer pontas de um dado estilo. No entanto, as pontas encontradas no Brasil não se assemelham às de Clóvis, da América do Norte, nem às do tipo rabo de peixe, que estão presentes na Argentina e no Uruguai, com idade de até 11 mil anos. “Há algumas dessas no Brasil, mas ainda sem datação”, comenta Mercedes.

Artefato de pedra do sítio de Santa Elina, em Mato Grosso, datado em mais de 25 mil anos
Por Léo ramos chaves

..:: Idade calibrada
As datações de sítios arqueológicos sempre provocam alguma discordância, às vezes até polêmicas, quando os resultados obtidos atingem idades inesperadas. Um dos motivos é que, nas Américas, o número de esqueletos humanos antigos encontrados preservados é pequeno e, entre os poucos que resistiram à passagem do tempo, é raro os arqueólogos conseguirem extrair tecido biológico (colágeno) que possa ser alvo direto do processo de datação por carbono 14. A datação direta de material humano é sempre mais difícil de ser contestada. Com o método do carbono 14, é possível datar material de até 50 mil anos. Quando não é possível estabelecer uma cronologia de ocupação de uma área a partir de tecido biológico de esqueletos humanos, o recurso seguinte é tentar obter dados indiretos: datar a camada geológica em que os esqueletos ou vestígios humanos foram achados. Não havendo ossos de Homo sapiens, a saída é procurar por objetos feitos pelas mãos humanas ou restos de fogueiras produzidas pelo homem que possam ser datados. Se isso também não é possível, resta recorrer novamente à datação da camada geológica em que o objeto associado à presença humana foi encontrado.

Para complicar ainda mais as coisas, as idades fornecidas pelo método do carbono 14 podem ser apresentadas de duas formas, calibradas ou não calibradas. Isso gera discrepâncias e confusões. Nem sempre fica claro para o público leigo quando os arqueólogos ou os meios de comunicação estão usando um tipo de dado ou outro. Idades obtidas pela técnica do carbono 14 têm de passar por um tipo de correção para serem equivalentes aos anos do calendário humano. Assim, 10 mil anos obtidos pela técnica do carbono 14 representam, depois de serem calibrados, cerca de 12 mil anos. Há mais de uma forma de fazer essa correção e, dependendo da técnica empregada e da margem de erro, os resultados corrigidos podem variar significativamente. Por isso, alguns arqueólogos preferem trabalhar com as datações por carbono 14 sem terem passado por esse processo de correção. “Prefiro usar datas não calibradas”, comenta Walter Neves. Em tempo: nesta reportagem foram usadas datas calibradas.

...:: Artigos Científicos
BUENO, L. e DIAS, A. Povoamento inicial da América do Sul: Contribuições do contexto brasileiro. Estudos Avançados. v. 29, n.83, jan./abr. 2015.
ARAUJO, A. G. M. On vastness and variability: Cultural transmission, historicity, and the paleoindian record in eastern South America. Anais da Academia Brasileira de Ciências. v. 87, n. 2, p. 1239-58. 2015.
BUENO, L. et al. The late Pleistocene/early Holocene archaeological record in Brazil: A geo-referenced database. Quaternary International. v. 301, p. 74-93. 8 jul. 2013.

Fonte..:: Pesquisa Fapesp

Afinidades biológicas de grupos pré-históricosdo vale do rio Ribeira de Iguape (SP): uma análise preliminar


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