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quarta-feira, 7 de agosto de 2019

A Influência da Micro-História na Historiografia Brasileira sobre a Colonização


Por..:: * Luís Rafael Araújo Corrêa

Quando Ginzburg afirmou que não seria descabido prever que no futuro as trocas entre a historiografia italiana e a historiografia francesa seriam menos desiguais, ele não poderia ter sido mais certeiro. Com o advento da Micro-História e a renovação historiográfica que a microanálise proporcionou a situação definitivamente mudou. Não demorou muito até que a historiografia francesa, outrora grande referência para os historiadores italianos, fosse seduzida pela metodologia proveniente da península itálica. Muito embora a influência italiana tenha sido apropriada pelos franceses a sua maneira, sobretudo a partir de trabalhos de historiadores como Jacques Revel, responsável, por exemplo, pela coletânea “Jogos de Escala”, parece claro que a abordagem micro-histórica deixou marcas no campo intelectual francês.

A Micro-História, que inicialmente ocupava uma posição periférica inclusive na historiografia italiana, ganhou espaço e se espalhou pelo mundo na medida em que os estudos de seus principais idealizadores, Edoardo Grendi, Giovanni Levi e Carlo Ginzburg, repercutiram no meio acadêmico. Essa difusão, que se deu de forma crescente a partir da década de 1980, teve grande impacto sobre o fazer historiográfico, deixando heranças que até hoje se fazem sentir. Uma dessas marcas é a atenção dada a temas até então pouco estudados, com o uso de fontes documentais muito variadas, as quais são analisadas a partir de uma perspectiva que enfatiza o protagonismo dos indivíduos ao invés de sistemas normativos que determinariam o comportamento das pessoas.


No Brasil, a influência da Micro-História teve um impacto muito significativo nas análises sobre a colonização portuguesa na América. E, neste sentido, fez-se presente inicialmente em estudos ligados à ação inquisitorial na colônia. Orientando-se sobretudo por Ginzburg e seu estudo sobre o moleiro italiano Menocchio, condenado pelo Santo Ofício por suas ideias heréticas, a historiografia brasileira concernente ao tema tem ido muito além da análise institucional da Inquisição, trazendo à tona diversos assuntos outrora inexplorados, como a feitiçaria, a sodomia, a bigamia e a sexualidade. O primeiro grande expoente foi a clássica obra de Laura de Mello e Souza: “O Diabo e a Terra de Santa Cruz”, que versa sobre a feitiçaria e a religiosidade colonial na América portuguesa. Recorrendo a diversos estudos de caso colhidos em processos inquisitoriais, Souza analisa as práticas mágico-religiosas e a religiosidade popular na América portuguesa a partir do conceito de circularidade cultural, concluindo pertinentemente que, no âmbito colonial, as crenças cristãs, judaicas, indígenas e africanas se entrelaçaram, dando origem a uma religiosidade especificamente colonial. No plano específico, a sua obra teve o grande mérito ainda de reconstruir o cotidiano e a visão de mundo de homens e mulheres coloniais. Além disso, Souza também explicitou que a concepção de um cristianismo puro não passava de um modelo imaginário. Pesquisando casos cotidianos e particulares, a autora refuta tal pureza, ressaltando que se na Europa da Idade Moderna o cristianismo popular era marcado pelo paganismo e pelo desconhecimento dos dogmas religiosos, na América portuguesa essa situação se tornaria ainda mais complexa, de modo que o catolicismo de origem européia se entrelaçaria a elementos africanos e indígenas.


O caminho aberto por Souza na historiografia brasileira rendeu frutos importantes. A partir de sua análise pioneira, diversos estudos sobre a Inquisição surgiram desde então. E em quase todos eles o diálogo com a Micro-História foi fundamental. Diversas trajetórias de indivíduos processados pela Inquisição e que revelaram-se muito relevantes para entender a dinâmica da colonização portuguesa na América foram descortinadas. Dentre elas, podemos citar os exemplos da africana Rosa Egipcíaca, do português herético Pedro Rates Henequim e do índio mandingueiro Miguel Ferreira Pestana, todos eles temas de estudos específicos orientados pelos princípios da Micro-História.


A relativização de conceitos e modelos gerais advindos de uma perspectiva totalizante também mostraram-se importantes para a renovação da historiografia brasileira. Nesse sentido, a relativização de conceitos como o de absolutismo, na qual a importância dos trabalhos de micro-historiadores como Levi e Grendi é evidente, foram decisivos para a reavaliação da noção de Antigo Sistema Colonial. A historiografia brasileira muito se beneficiou da análise de casos particulares que permitiram refutar a rigidez imposta pelo referido sistema, no qual as partes que constituíam a América portuguesa estariam limitadas apenas a responder às imposições absolutas e intransigentes da metrópole. Ao invés da rigidez do sistema colonial, ganhou cada vez mais espaço a noção de Império colonial, que procura considerar as múltiplas relações que perpassavam os domínios portugueses ao redor do mundo no lugar da relação dual e dicotômica que opõe metrópole e colônia. Distanciando-se da visão celebrizada por Caio Prado Junior e sistematizada por Fernando Novais, surgiu uma nova perspectiva interessada em recuperar o dinamismo das partes que constituíam esse império. E, quanto a isso, poucas obras foram tão importantes quanto a coletânea “Antigo Regime nos Trópicos”, responsável por sistematizar esta perspectiva.


A Micro-História teve papel importante ainda ao contribuir para a recuperação do protagonismo do indivíduo no âmbito da historiografia. Se nos longos anos de influência das análises macrossociais os sujeitos se viram sufocados por estruturas politicamente dominantes e intransponíveis ou mesmo por modelos sócio-culturais que determinavam previamente as suas ações, houve uma crescente valorização do indivíduo na historiografia a partir da difusão da Micro-História. Sobre isso, o conceito de rede mostrou-se significativo não apenas por permitir entender melhor a sociedade estudada por intermédio de sua cadeia de relações, como também por revelar o lugar social dos indivíduos analisados. No caso da historiografia brasileira, tal conceito tem sido de grande valia para os estudos sobre os negociantes e comerciantes coloniais, permitindo desvelar as diversas atividades nas quais eles estavam envolvidos, assim como acompanhar o alcance de suas atividades comerciais. A esse respeito, o redimensionamento do papel e da importância dos negociantes, bem como das elites coloniais, evidente na produção historiográfica brasileira recente, denota isso muito bem. Indispensável a fim de conectar o indivíduo ao tecido social no qual estava inserido, a noção de redes sociais vale-se da Micro-História como um de seus principais referenciais. Tendo como primeiro expoente o historiador João Fragoso e sua obra “Homens de Grossa Ventura”, que analisa a acumulação econômica de negociantes que atuavam no Rio de Janeiro, o assunto vem sendo paulatinamente desenvolvido a partir de inúmeras teses e dissertações desde a década de 1990.


O mesmo protagonismo, aliás, foi ressaltado nos novos estudos sobre a escravidão: ao invés de meras vítimas passivas, os escravos passaram a ser encarados como sujeitos racionais e capazes de desenvolver estratégias de ação a partir dos recursos que possuíam. Tais estudos sobre a escravidão se valeram de uma perspectiva a respeito das relações entre senhor e escravo que muito se beneficiaram dos pressupostos da Micro-História. Mais do que uma mera relação de submissão, os estudos sobre a escravidão no Brasil vem revelando desde a década de 1980 que havia espaço para negociações e concessões aos escravos, que não raro agiam coletivamente em prol de interesses comuns . Sobre isso, poucos estudos abordaram esse aspecto de maneira tão competente quanto “Negociação e Conflito”, de João José Reis e Eduardo Silva. E, por falar em conflito, não podemos esquecer a obra monumental de Flávio Gomes, que desvendou a resistência escrava empreendida por meio de quilombos em “A Hidra e os Pântanos”. Além disso, a ideia de que a promiscuidade reinava absoluta nas senzalas foi refutada por estudos que destacam a relevância da família escrava. Impulsionados pela obra de Robert Slanes sobre a questão, “Na senzala, uma flor”, novos modos de vida e diferentes arranjos familiares tem sido descortinados. Ao analisar a multiplicidade das relações sociais, bem como as suas variadas facetas, a Micro-História contribuiu decisivamente para o tema ao difundir um ponto de vista que compreende as relações sociais como o resultado das escolhas, das estratégias e das interações entre os indivíduos.


Da mesma forma, diversos estudos redimensionaram o papel dos índios ao longo do processo de colonização da América portuguesa. Durante muito tempo, a historiografia se limitou a encarar as populações indígenas como meros espectadores de situações que os envolviam diretamente. Quando muito, reagiam à interferência e aos agravos da sociedade envolvente, mas nunca dispondo de estratégias de ação conscientes. Os índios, concebidos como uma categoria genérica, sem qualquer consideração às diferenças étnicas e culturais, não eram vistos, portanto, como sujeitos históricos ativos e capazes de incidir sobre a realidade nas quais se inseriam. Esse quadro começou a mudar a partir da emergência de uma nova compreensão histórica a respeito dos povos nativos. A “Nova História Indígena”, como viria a ser chamada, teria como principal objetivo redimensionar o papel dos índios na História, recuperando o protagonismo dos mesmos. Dialogando diretamente com a Antropologia, essa nova vertente beneficiou-se também da Micro-História, o que possibilitou um olhar sobre os índios que contempla tanto a sua diversidade étnica e cultural, quanto o papel de sujeitos de sua própria história. Você pode acompanhar uma lista bem detalhada de obras que seguem esse ponto de vista em outro de nossos artigos. Ainda assim, vale a pena citar obras como “História dos Índios no Brasil”, “Negros da Terra”, “Metamorfoses Indígenas” e “Feitiço Caboclo”, todos eles fundamentais para a compreensão do protagonismo indígena na História.


Como os Annales de outrora, a Micro-História teve um impacto de peso na historiografia brasileira sobre a colonização portuguesa. Diversos temas antes relegados a segundo plano ou ignorados pelos estudiosos, ganharam relevância desde então. Mesmo que não tenha sido responsável por criar uma escola ou um movimento unido e coeso, não dá dúvidas que os procedimentos da Micro-História influenciaram a forma de fazer história a partir de então. Ao valorizar o micro como uma importante escala de observação, essa abordagem permitiu outra visão sobre a realidade social, enriquecendo e muito a análise ao contemplar aspectos geralmente imperceptíveis em uma escala mais ampla.

* Luís Rafael Araújo Corrêa é professor do Colégio Pedro II e Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Autor de artigos e livros sobre História, como a obra Feitiço Caboclo: um índio mandingueiro condenado pela Inquisição.

Referências Bibliográficas
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GINZBURG, Carlo. O nome e o como. Troca desigual e mercado historiográfico. In: ______. A micro-história e outros ensaios. Lisboa/Rio de Janeiro: Difel/Bertrand Brasil, 1991.
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LEVI, Giovanni. Centro e Periferia di uno Stato Assoluto. Turin: Rosemberg & Seller, 1985.
REVEL, Jacques. “Microanálise e construção do social”. In: ______ (org.). Jogos de escalas: a experiência da microanálise. Rio de Janeiro: FGV, 1998.

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