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segunda-feira, 8 de abril de 2019

ARTIGO TURISMO E COMUNIDADES RECEPTORAS: Turistas e Qualidade de Vida: Uma Dupla incompatível para os locais?


Por..:: Maria João Carneiro

Poderá a interação com os turistas aumentar a qualidade de vida dos residentes nas cidades?

As cidades assumem já um papel preponderante no turismo a nível mundial, correspondendo, muitas delas, a importantes destinos turísticos. No entanto, as cidades são, simultaneamente, territórios explorados pelos turistas e, também, local de residência para muitas outras pessoas. O “olhar” sobre as cidades na perspetiva do turismo detém-se frequentemente nas atrações turísticas aí existentes e que podem motivar os turistas a visitar estes territórios, que abrangem desde monumentos e museus, a jardins e eventos turísticos. A análise dos contributos do turismo em cidades para os residentes locais é, muitas vezes, negligenciada. Um dos âmbitos de investigação que tem sido descurado neste contexto é a análise da influência do contacto com turistas na qualidade de vida dos residentes.

Um estudo da autoria de Maria João Carneiro, Celeste Eusébio e Ana Caldeira, docentes da Universidade de Aveiro, publicado no Journal of Quality Assurance in Hospitality & Tourism, revela que a interação com os turistas pode contribuir para melhorar a perceção dos residentes relativamente aos impactes que o turismo tem na sua qualidade de vida. Embora este estudo tenha sido desenvolvido em comunidades litorais que não são cidades, os resultados obtidos e algumas perspetivas já fornecidas por outros estudos sugerem que muitas das conclusões são aplicáveis a outros territórios.

Os resultados revelam que, quanto maior é a satisfação dos residentes quando interagem com os turistas (por exemplo, fornecendo informações, vendendo produtos, ou, simplesmente, encontrando-se com turistas em atrações turísticas), mais positiva é a perceção dos residentes relativamente aos impactes do turismo na sua qualidade de vida. Os residentes mais satisfeitos com o contacto com turistas são os que consideram que o turismo contribuiu mais para melhorar o seu bem-estar psicológico, aumentando os seus sentimentos positivos. Isto pode significar que a interação com turistas proporciona aos residentes um conhecimento mais aprofundado dos turistas, possivelmente uma maior compreensão das suas características e, consequentemente, mais oportunidades para a criação de afinidades entre os dois lados.


Os residentes mais satisfeitos são também os que reconhecem que o turismo lhes proporcionou maiores oportunidades a nível social, tais como participar em atividades recreativas e culturais, ter mais possibilidade de convívio e de contacto com pessoas com diferentes culturas, bem como oportunidades económicas em termos de emprego e de obtenção de mais recursos financeiros. É interessante remarcar que, no estudo realizado, a satisfação com a interação com turistas teve um impacte significativo na perceção dos impactes do turismo em todos os domínios da qualidade de vida considerados na investigação, mas que a intensidade deste impacte pode variar consoante o domínio da qualidade de vida. Neste estudo, este impacte foi mais elevado no domínio psicológico e ao nível das oportunidades sociais e económicas.

Além disso, a investigação sugere também que, se a interação com os turistas for bem gerida, uma maior intensidade desta interação, ou seja, uma maior frequência de contacto com os turistas, pode também contribuir para que os residentes percecionem impactes mais positivos na sua qualidade de vida. O facto de os residentes interagirem com os turistas poderá gerar uma maior compreensão relativamente aos turistas e aos impactes do turismo, particularmente às consequências positivas desta atividade, bem como a criação de atitudes positivas relativamente aos turistas e ao turismo em geral. Esta situação pode contribuir para gerar, nos residentes, uma maior capacidade de compreensão e aceitação relativamente aos impactes negativos do turismo.

O estudo corroborou outras investigações realizadas anteriormente que revelam que a intensidade da interação entre residentes e turistas é, ainda, bastante reduzida, embora haja já bons exemplos de casos em que se tenta promover este tipo de interação. Estes resultados remarcam que existe um enorme potencial da interação entre residentes e turistas que se encontra ainda por explorar. Explorar este potencial requer um olhar atento por parte de investigadores da área do turismo, mas também dos responsáveis pela gestão dos destinos e dos próprios fornecedores de serviços aos turistas.

Nas cidades, existem inúmeras oportunidades de promover a interação entre residentes e turistas. Uma estratégia que pode ser desenvolvida neste âmbito passa por incentivar que alguns residentes desempenhem alguns serviços turísticos em que contactam diretamente com o turista, por exemplo, vendendo produtos característicos do destino aos turistas ou fornecendo informações num posto de turismo. Neste contexto, pode ser particularmente interessante que os residentes assumam o papel de guias turísticos em algumas áreas das cidades ou, especificamente, em algumas atrações dessas cidades. Esta pode ser uma excelente oportunidade de os residentes partilharem com os turistas, não só os conhecimentos que têm sobre as cidades ou sobre alguns aspetos das suas atrações turísticas, mas também as suas experiências e vivências na cidade, que, muitas vezes, despertam mais facilmente a atenção e o interesse dos turistas. Os residentes podem ser, por exemplo, convidados a serem guias em visitas a bairros mais antigos das cidades ou com maior riqueza patrimonial, e a relatarem a evolução do bairro e as suas vivências nesse local. Neste âmbito, os residentes podem ser incentivados a utilizar o storytelling, isto é, contar histórias ou experiências particularmente interessantes e relevantes da sua vida que poderão fomentar uma maior curiosidade e interesse entre os turistas e, também, criar experiências turísticas mais memoráveis e enriquecedoras. No entanto, estas oportunidades de contacto podem ser também muito relevantes para os residentes, que podem sentir-se úteis por fornecerem serviços aos turistas, e também ficar mais satisfeitos por terem mais oportunidades para conviver com outras pessoas e, até, por partilharem ideias com pessoas de outras culturas.

As estratégias anteriormente referidas requerem, muitas vezes, que os residentes recebam formação para que os contactos com os turistas decorram da melhor forma e sejam ultrapassadas barreiras que podem surgir neste tipo de interação relacionadas com a língua e a diferença de culturas, entre outros aspetos.

Podem, também, criar-se, nas cidades, mais oportunidades de contacto entre residentes e turistas, fomentando o convívio em atrações turísticas. Esta estratégia pode ser particularmente interessante em eventos, onde se podem desenvolver atividades que requeiram que os residentes interajam e partilhem experiências com os turistas. Em alguns locais, os turistas são já convidados a participar, conjuntamente com os residentes, na preparação de determinados eventos. Neste contexto, a interação estende-se ao período pré-evento. A interação entre residentes e turistas pode também ser promovida em atrações construídas, tais como castelos, organizando, por exemplo, eventos de história viva em que se recriam períodos do passado com a ajuda de residentes locais que assumem o papel de determinadas personagens relevantes na história do destino.

Pode promover-se um contacto ainda mais próximo entre residentes e turistas quando, por exemplo, os residentes adotam uma prática já mais comum no âmbito do turismo rural, convidando os turistas a virem a sua casa. Um exemplo, neste contexto, foi o que aconteceu em Guimarães, quando esta cidade foi Capital Europeia da Cultura. Nesse período, alguns residentes receberam músicos e turistas na sua própria casa.

Existem já outras estratégias para promover o contacto entre residentes e turistas nas cidades, bem como outros bons exemplos de casos em que esse contacto gerou já benefícios muito relevantes para residentes e turistas, que seria interessante explorar mais aprofundadamente no futuro.

Considerando a escassez de investigação na temática abordada neste artigo, é particularmente importante continuar a desenvolver investigação que forneça perspetivas sobre o tipo de interação que pode contribuir para que os residentes percecionem impactes mais positivos do turismo na sua qualidade de vida e que ajude a desenvolver estratégias que promovam este tipo de interação.

Fonte..:: Smart Cities

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