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domingo, 1 de março de 2015

Cultura de Paz e Direito à Vida

Por..:: Hamilton Faria

A Cultura de Paz é entendida por parte significativa da sociedade como passividade,  fragilidade diante do mais forte e ausência de conflitos. A Cultura de Paz é fruto da não violência ativa, é sintoma de força; a violência é sintoma de fragilidade da sociedade e dos seus protagonistas. A Cultura de Paz não esconde, mostra o conflito, busca resolvê-lo com resistência ativa, diálogo, amorosidade, mediação, escutas, interculturalidade e valorização da diversidade cultural;  convivência pacífica entre os seres; justiça restaurativa, comunicação não violenta, consumo responsável, simplicidade voluntária, participação pacífica nos processos socioculturais. E respeito à vida em todas as suas manifestações. É um novo paradigma para a transformação da sociedade e dos valores que a constituem.

A paz que está em nosso imaginário parte da noção da Pax Romana, que incorporava territórios com violência e depois impunha regras de controle. Há que desconstruir este conceito.

Quero partir de três máximas para situarmos a cultura de paz:

A primeira é: "Somos a mudança que queremos ver no mundo" (Gandhi)

Vou contar uma estória que ilustra bem esta máxima: uma mãe indiana pede para Bapu (Gandhi) aconselhar o seu filho a não comer açúcar porque estava ficando doente. Bapu diz para a mãe que retornasse no prazo de um mês.  Ele aconselha: "Menino, não coma mais açúcar". O menino diz que vai parar de comer açúcar ao ouvir o Mahatma. A mãe pergunta: -"porque Bapu pediu um mês e não falou logo em seguida?" Gandhi responde: "É que naquela época eu ainda comia açúcar". O que vemos desde sempre - pessoas pregando aquilo que não são. As conclusões a partir desta máxima falam por si.

A segunda: "Tudo que vive é o teu próximo". (Gandhi) Aí o nosso diálogo se amplia para a comunidade dos seres vivos. Estamos hoje numa comunidade maior - a comunidade da vida -, onde as pessoas, a natureza, os animais, as florestas também devem ter direitos. Veja-se a Ley de Derechos de la Naturaleza, do Equador, e a Ley de Derechos de la Madre Tierra, da Bolívia, - que desenvolvem uma filosofia de proteção dos povos originários e respeito às formas de vida e ritmos da natureza. Estas leis garantem à natureza o direito à vida, o direito de ter ciclos e processos vitais livres da alteração humana, o direito de não ter estruturas celulares alteradas geneticamente. Buscam garantir o direito de seus países não serem degradados por megaprojetos de desenvolvimento que afetem o equilíbrio de ecossistemas e das populações locais. São legislações que revolucionam o mundo do direito, - que dão à natureza os direitos básicos dos humanos. A natureza passa a ser sujeito de direitos. Estas políticas provocam estremecimento nas leis estabelecidas, centradas em princípios patrimonialistas que regulam as relações entre os seres humanos e suas propriedades. Elas estabelecem no mundo da cultura a noção de bem comum.

Esta máxima amplia a noção do "outro" para a comunidade dos seres vivos e mostra os limites de uma civilização com centralidade nos seres humanos. O planeta tem outros habitantes. Esta é a boa-nova vital para a metamorfose contemporânea.

Está posto que precisassem criar uma nova ética; esta terá como força espiritual a reverência pela vida.

A terceira máxima é aquela de André Breton no Manifesto Surrealista: "Será preciso começar por retirar da guerra todos os seus  títulos de nobreza".

Não há nenhuma virtude na guerra e ela precisa ser compreendida como manifestação de uma pré-história civilizatória e método de domínio, não de emancipação.

Mudar nome de ruas que lembram ícones da violência; refundar o vocabulário e metáforas que enaltecem a violência "justa" (sic) ou injusta; construir valores positivos na comunicação presencial e virtual; eleger o diálogo e a resistência ativa, a construção de outros paradigmas culturais que contribuam para civilizar a civilização e criar novas formas de vida em sociedade.  .

A violência não é direito, é transgressão de um direito (Jean Marie Mueller).

Assim, pode-se criar o Ministério da Cultura de Paz e dos Direitos Humanos e linhas de trabalho transversais que eduquem a  defesa e a segurança para os novos tempos.

A Cultura de Paz revela novas formas de ver o mundo, escutar, dialogar, viver, sentir, compartilhar, com não violência. É a verdadeira alma do reencantamento do mundo.

Como fazer cultura de paz? Como indica AJ Muste, pacifista, líder dos direitos civis nos Estados Unidos dos anos 60. "Não há caminho para a paz, a paz é o caminho".

Assim, a cultura de paz vem desempenhando duas funções: 1) tornar visíveis as violências diretas, estrutural e simbólica/cultural no cotidiano, na grande vida, no imaginário; 2) estimular a criatividade para criar e promover novas formas de convivência, outros conceitos, atividades, relações, novos estilos do bem viver.

Assim, alguns dos grandes desafios de hoje são: construir a paz nos territórios, fortalecer valores na localidade e transformá-los em políticas públicas.

Como diz Maria Zambrano, escritora e filósofa espanhola (1908-1996): "A paz é muito mais que assumir uma postura, é uma autêntica revolução, um modo de viver, um modo de habitar o planeta, um modo de ser pessoa".

Está em constituição um novo paradigma civilizatório, central para acrescentar humanidades à vida do planeta; envolve valores, atitudes, ações e políticas públicas.

Quero terminar com um conto do poeta Kurt Kauter, incluído no magnífico texto da professora Lia Diskin Vamos ubuntar? Um convite para cultivar a paz, UNESCO, Fundação Palas Athena, 2008.

Nada de Nada

Sabes me dizer quanto pesa um floco de neve?  perguntou um pardal a um pombo silvestre.
Nada de nada - foi a resposta.
Nesse caso vou lhe contar uma história maravilhosa - disse o pardal.
Eu estava sentado no ramo de um pinheiro quando começou a nevar.
Não era nevasca pesada ou furiosa. Nevava como em um sonho: sem ruído nem violência.
Já que não tinha nada melhor a fazer, pus-me a contar os flocos de neve que se acumulavam nos galhos e agulhas do meu ramo. Contei exatamente 3.741.952.
Quando o floco número 3.741.953 pousou sobre o ramo - nada de nada como você diz - o ramo se quebrou.
Dito isso, o pardal partiu em voo.
A pomba, uma autoridade no assunto desde Noé, pensou um pouco na história e finalmente refletiu: talvez esteja faltando uma única voz para trazer paz ao mundo.

Fonte..:: Boletim Instituto Pólis, 27 de fevereiro de 2015.



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