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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Birdwatching: Aprender com um Observador Profissional

SABER ESCUTAR, TER PACIÊNCIA, FOCO, PESQUISAR MUITO E AGIR EM SILÊNCIO - AS TÁTICAS DE EDSON ENDRIGO, QUE JÁ FOTOGRAFOU 1,5 MIL ESPÉCIES DE AVES.

É um pica-pau. Ouviu? Consegue ver? Olha ele lá, no galho mais alto. Já foi... mas daqui a pouco ele volta, pode apostar. Aí o Edson assovia, dali mesmo, da varanda do apartamento. Três sequências de três assovios curtos, com intervalo de oito segundos para cada sequência. O pica-pau responde. Edson volta a chamar daqui, o pássaro chama de lá. Edson se anima. Pega o MP3, pluga um alto-falante portátil e reproduz uma gravação da “voz” do bicho. Não demora muito para ele pousar numa árvore em frente à varanda. Olha que coisa linda. É um cabeça-amarela. Todo dia recebo visitas aqui. Tiê, surucuá, tucano... Aí observo, admiro e fotografo. Me diz: dava para fazer outra coisa na vida?

Dava. Ou melhor, deu. Até os 30 anos, Edson Endrigo, hoje com 48, era mineralogista. Tinha com o irmão uma pequena exportadora de minerais, negócio rentável e promissor que garantia com folga o sustento da família. Vendia hematita, apatita, turmalina – sem lapidar, que é como os colecionadores estrangeiros gostam. A empresa foi tão bem que Edson mudou-se para a região do Panamby, Zona Sul de São Paulo, numa rua tranquila, em apartamento próprio, com vista para um pedaço de Mata Atlântica. Uma beleza de cenário. “Isso aqui lembra a minha infância. Quando eu era moleque, costumava passar os finais de semana num sítio em Angatuba, pescando com meu pai ou jogando alpiste para pegar tizio, sempre em contato com a natureza”, diz. “Abrir a janela e ver essa exuberância me trouxe de volta aquela sensação de liberdade.”

Voa Sanhaço, vai Juriti
Trouxe mais do que isso. As constantes visitas de pica-paus, periquitos e juritis despertou no mineralogista a vontade de conhecer melhor esse universo. Passou a observá-los com atenção e quando se deu conta já gastava horas no voyeurismo com os pássaros. Via um e corria para o computador na tentativa de identificá-lo. Buscou informações com biólogos da USP, virou habitué de parques e reservas ambientais e trocou centenas de mensagens com observadores. Descobriu também que tinha ouvido bom para a coisa. Clicava nos sites de reprodução de sons dos pássaros – um iTunes dos gorjeios –, gravava no MP3 e, de tanto ouvir, ficava com a melodia na cabeça. “Não sabia que meu ouvido era bom. Nunca estudei música, mas tenho sensibilidade para este tipo de som. Agora mesmo, falando com você, ouço a cambacica me provocar, o sanhaço se assanhar. É quase uma conferência lá fora.”

Edson gosta mesmo é de se enfiar mata adentro, Brasil afora, para clicar raridades – como o pica-pau-do-parnaíba, considerado “extinto”.

O passatempo ficou sério. Fotógrafo autodidata, Edson juntou à observação a mania de clicar os pássaros. No Brasil, terceiro país do mundo em diversidade de aves, a grande maioria dos observadores mistura as duas atividades, diferentemente do que ocorre em outras partes do mundo, como na Inglaterra, onde ainda é grande o número de puristas: aqueles munidos apenas de binóculos e cadernetas. Edson chegou a montar uma barraca no meio da mata em frente ao seu prédio para espiar as aves e fotografar. Fotografou tanto que acabou ficando bom nisso. Mandava – e ainda manda – as fotos para a aprovação do pai, Laércio, apreciador das aves e grande incentivador de sua nova carreira. “Meu pai sempre adorou a natureza, os pássaros, a vida no campo. Mas um acidente de carro, quando ele tinha 38 anos, privou-o de tudo isso. Faz 40 anos que ele está numa cama”, diz Edson. “Comecei a fotografar para mostrar a ele.”

De acordo com as estatísticas da Avistar Brasil, tradicional feira de observação de aves da América Latina, o país tem atualmente 30 mil birdwatchers. E a fila anda: em média, surgem 3 mil novos adeptos por ano.

Não parou mais. Fundou uma editora, a Aves&Fotos, publicou 13 livros, organizou workshops, fez palestras, montou passeios guiados para observadores e... largou a exportadora de pedras. “Hoje, eu vivo de pássaros. Não dá a mesma renda da empresa, mas traz uma satisfação enorme e sustenta a minha família. É o que basta.” Ele diz que até poderia ganhar mais se intensificasse os programas de visitas guiadas. Mas isso reduziria o tempo para fazer o que mais lhe dá prazer: enfiar-se mata adentro, Brasil afora, com ouvidos e olhos atentos e uma Canon 600 a tiracolo.

Ter bom ouvido e manter o foco (não apenas o dos retratos) são prerrogativas para quem quer ser um observador de pássaros. Podem se passar horas entre os primeiros pios e cantos e a materialização do bicho, o que remete imediatamente a outra característica fundamental do ofício: a paciência. “Nas minhas saídas pelo Brasil, já passei tardes inteiras em uma floresta ou parque esperando pela ave”, conta Edson. E se ela não vier? “Isso dificilmente ocorre. Nenhum observador pode ir a campo contando com a sorte. Ele deve fazer um trabalho prévio de pesquisa, conhecer os hábitos e o hábitat do pássaro e estar aparelhado para atraí-lo.”


Pesquisa e paciência
Em geral, são meses de estudo antes de entrar nas matas. Desde setembro, por exemplo, Edson vem mapeando os tabocais (florestas de bambu)  do Acre, que pretende visitar somente em 2015. Listou as aves da região, selecionou 50, memorizou a aparência de cada uma, transferiu as “vozes” para o MP3 e buscou informações com quem já esteve lá. “Achar que conhece tudo é o grande erro do observador. Quando vou a campo, busco a ajuda de um guia local. A parceria facilita um bocado.”

Dados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente mostram que, em 2012, a atividade de birdwatching movimentou US$ 32 bilhões nos EUA (eles contam tudo, desde o impacto na indústria do turismo até a venda de ração para pássaros).

Um equipamento de qualidade também. A lista inclui: um MP3, um alto-falante, um microfone, gravador, um binóculo (o de Edson é um 10x42, da Swarovski) e, claro, tripés e a câmera. Ao todo, ele leva na mochila de 15 kg a 20 kg numa saída. Na hora em que avista o pássaro, segue o ritual sagrado dos bons observadores: faz uma leitura corporal do bicho para avaliar seu nível de, digamos, relaxamento. Se a ave se mostrar arisca, ele fica onde está. Se estiver tranquila, inicia uma aproximação cuidadosa. “Mas mesmo que o pássaro esteja tranquilo eu terei pouquíssimo tempo para fotografar”, diz. “Não dá para ser perfeccionista. Muitas vezes, eu faço as fotos na posição que dá até ganhar a confiança dele e ir me aproximando.” Edson costuma fazer dez fotos de cada pássaro. Em geral, emplaca duas. “Hoje, eu tenho o maior acervo de aves fotografadas no Brasil. São 1,5 mil espécies, de um total de 1.825 que existem no país.” Ele diz que é o terceiro fotógrafo mais “publicado” no Handbook of the Birds of the World, a bíblia dos observadores.

De todas as imagens que captou, uma, em particular, o enche de orgulho: a histórica foto do pica-pau-do-parnaíba. Histórica porque fazia 80 anos que ninguém via o pássaro no Brasil. Imaginava-se que a espécie estava extinta. Edson não viu nenhum registro oficial do extermínio, o que lhe pareceu suficiente para fazer as malas e se mandar para o Cerrado de Palmas, no Tocantins. Se o parnaíba ainda existisse, era grande a chance de estar por lá. A meta era ousada. Os guias locais nunca tinham ouvido falar do pássaro e, para piorar a situação, Edson não havia achado um só registro da voz do bicudo. Improvisou. “Levei a voz de um parente dele, o pica-pau-do-amazonas. Geralmente eles reconhecem os semelhantes. Chamei algumas vezes. Veio um. Depois vieram mais sete parnaíbas. Fotografei todos.” Quem disse que um observador não deve contar com a sorte? 

FOTOS DO ACERVO PESSOAL DE EDSON, TIRADAS DA VARANDA DE SEU APARTAMENTO: O MULTICOLORIDO SURUCUÁ, O PERIQUITO-RICO E O TUCANO-DE-BICO-VERDE (FOTOS: EDSON ENDRIGO).
Fonte..:: ÉPOCA NEGÓCIOS

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