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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Conheça o Camaleãozinho (Enyalius perditus) da Mata Atlântica.






Foto de Renato Marchesini
Local: Trilha Cabuçu - Santos SP - 16-01-2016



Camaleãozinho (Enyalius perditus)
O gênero Enyalius contém atualmente nove espécies de lagartos, as quais se distribuem principalmente por áreas florestadas da Mata Atlântica, podendo ser encontradas também em algumas regiões da Amazônia e Cerrado. Algumas espécies ainda podem habitar bordas de mata e ambientes alterados, como plantações de café e áreas de pastagem. O camaleãozinho (Enyalius perditus), também conhecido como lagarto-verde, papa-vento ou camaleão, é encontrado nos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, habitando geralmente florestas localizadas em áreas de altitude elevadas (acima de 1.000 m) dentro do bioma daMata Atlântica.
O camaleãozinho possui pequeno porte, e embora possa atingir quase 30 cm de comprimento, cerca de dois terços de seu corpo são compreendidos pela sualonga cauda. O nome do gênero, Enyalius, vem do grego, e significa belicoso, ou seja, “habituado à guerra”, “agitado”, “furioso”, talvez em referência ao comportamento destes lagartos quando capturados, que se debatem para fugir e tentam morder seu agressor. O nome específico perditus vem do latim e significa perdido, uma alusão ao fato de a espécie ter sido por muito tempo confundida com Enyalius catenatus.
 
Algumas das espécies de Enyalius: A) Enyalius bilineatus. B) Enyalius brasiliensis. C) Enyalius catenatus. D) Enyalius erythroceneus. E) Enyalius iheringii. F) Enyalius perditus.
Hábitos e alimentação
Enyalius perditus possui atividade diurna e hábito semiarborícola, ocupando tanto a vegetação arbórea e arbustiva quanto a serapilheira das áreas onde ocorre. Durante a noite, pode ser encontrado em repouso na extremidade de galhos. Geralmente, lagartos de diversas espécies que são ativos durante o dia costumam dormir na ponta de galhos ou sobre folhas largas. Isto lhes confere camuflagem, dificulta que sejam capturados por um predador que escale os galhos mais fortes, e também facilita a fuga no caso de serem vistos.
A dieta de Enyalius perditus é composta principalmente de pequenos invertebrados. Alimenta-se de besouros, formigas, grilos, aranhas e larvas de mariposas e borboletas. É uma espécie que não possui autotomia caudal, um comportamento comum em muitos lagartos que soltam um pedaço da cauda quando ameaçados por um predador.
Fêmea de camaleãozinho em repouso na vegetação arbustiva durante a noite.
Reprodução
O camaleãozinho apresenta dicromatismo sexual, o que significa que a cor do macho é diferente da fêmea. Em geral, os machos adultos possuem uma coloração esverdeada, que tende a escurecer à medida que se aproxima da cauda. Já as fêmeas possuem um padrão variegado, mesclando tons que vão do marrom claro ao preto. Os jovens apresentam coloração semelhante a das fêmeas, sendo que os machos possuem variação ontogenética da coloração, tornando-se verdes à medida que crescem. Este tipo de mudança na cor da pele é uma característica comum a quase todas as espécies do gênero Enyalius.
 
Dicromatismo sexual em Enyalius perditus. A) Macho adulto. B) Fêmea adulta.
As fêmeas de Enyalius perditus são ligeiramente maiores que os machos. É uma espécie ovípara, que possui o período reprodutivo associado principalmente à estação chuvosa, de novembro a janeiro. Durante esta época, a fêmea costuma apresentar uma coloração alaranjada na região peitoral e gular, próxima à boca. Em um estudo com exemplares em cativeiro, observou-se que a cópula de Enyalius perditus pode durar de 15 a 45 minutos. Neste tempo, o macho se aproxima rapidamente da fêmea, mordendo-a na região do pescoço para segurá-la. Em seguida, insere um de seus dois hemipênis na cloaca da fêmea, começando o processo de coloração nupcial. Deste momento em diante, o macho começa a mudar de cor, alterando sua aparência esverdeada para tons de marrom escuro, vindo a retornar ao verde tradicional somente ao final da cópula. As ninhadas podem ter de 7 a 14 ovos, e o nascimento dos filhotes ocorre no final da estação chuvosa. Dentro de aproximadamente um ano, os jovens já terão atingido a fase adulta, estando aptos para reprodução.

Conservação

Enyalius perditus é uma espécie sensível à fragmentação de hábitats, o que significa que suas populações são maiores em regiões bem preservadas ou pouco perturbadas. Portanto, em áreas alteradas ou em estágios iniciais de regeneração, esta espécie é mais difícil de ser encontrada. Embora não seja considerada ameaçada de extinção em Minas Gerais ou em São Paulo, o camaleãozinho está entre as espécies tidas como quase ameaçadas no estado do Rio de Janeiro, onde são poucas as populações conhecidas.
A) Casal de Enyalius perditus em atividade de cópula. B) Juvenil de camaleãozinho com coloração variegada.
O camaleãozinho em Minas Gerais e em Viçosa
A ocorrência do camaleãozinho em Minas Gerais é associada principalmente para áreas de mata bem preservada, sobretudo em regiões serranas. Exemplos de localidades onde a espécie pode ser encontrada são: Parque Estadual da Serra do Ibitipoca (Lima Duarte), Parque Estadual Nova Baden (Lambari), Floresta Estadual do Uamii (Ouro Preto) e Serra do Ouro Branco (Ouro Branco).
Duas espécies de Enyalius são conhecidas em Viçosa (E. bilineatus e E. brasiliensis), mas não há registros da presença de Enyalius perditus. Provavelmente, a ausência de áreas grandes de vegetação contínua e as altitudes menores da região (abaixo de 1.000 m) não propiciem as condições necessárias para a sobrevivência da espécie no município. Entretanto, ela pode ser encontrada no Parque Estadual da Serra do Brigadeiro, aproximadamente a 30 km leste de Viçosa.
Você sabia?
Os camaleões-verdadeiros são lagartos da família Chamaeleonidae, que não ocorrem nas Américas. Habitam apenas o Velho Mundo, principalmente ao sul do continente africano e na ilha de Madagascar. São animais facilmente reconhecíveis pelas mãos e pés zigodáctilos, com dedos voltados para frente e para trás como um fórceps, semelhante aos pés de periquitos, araras e papagaios. Os camaleões-verdadeiros ainda destacam-se pela capacidade de movimentar os olhos de forma independente um do outro, pela língua muito longa, usada para capturar alimento, e também pela cauda preênsil, utilizada para se segurar na vegetação. Obviamente, o que todo mundo lembra quando se fala em camaleão é a sua notória capacidade de mudar a cor a da pele, usada para expressar mudanças nas condições fisiológicas e realizar interações sociais.
Indivíduo de camaleão-velado, (Chamaeleo calyptratus), do Oriente Médio.
Referências Bibliográficas
Costa, H. C., V. D. Fernandes, A. D. Rodrigues e R. N. Feio, R.N. 2009. Lizards and Amphisbaenians, municipality of Viçosa, state of Minas Gerais, southeastern Brazil. Check List 5(3): 732-745.
Dixo, M. e J. P. Metzger. 2009. Are corridors, fragment size and forest structure important for the conservation of leaf-litter lizards in a fragmented landscape? Oryx 43(3): 435-442.
Jackson, J. F. 1978. Differentiation in the genera Enyalius and Strobilurus (Iguanidae): implications for pleistocene climatic changes in eastern Brazil. Arquivos de Zoologia 30: 1-40.
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Rocha, C. F. D., M. Van-Sluys, G. Puorto, R. Fernandes, J. D. Barros-Filho, R. R. E. Silva, F. A. Neo, e A. Melgarejo. 2000. Répteis; p. 79-87 In H. G. Bergallo, C. F. D Rocha, M. A. S. Alves e M. Van-Sluys (ed.). A Fauna Ameaçada de Extinção do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Editora UERJ.
Rodrigues, M. T., M. A. Freitas, T. F. S. Silva e C. E. V. Bertolotto. 2006. A new species of lizard genus Enyalius (Squamata, Leiosauridae) from the highlands of Chapada Diamantina, state of Bahia, Brazil, with a key to species. Phyllomedusa 5(1): 11-24.
Sousa, B. M. e C. A. G. Cruz. 2008. Hábitos alimentares em Enyalius perditus (Squamata, Leiosauridae) no Parque Estadual do Ibitipoca, Minas Gerais. Iheringia 98(2): 260-265.
Sturaro, M. J. e V. X. Silva. 2010. Natural history of the lizard Enyalius perditus (Squamata: Leiosauridae) from an Atlantic forest remnant in southeastern Brazil. Journal of Natural History 44 (19-20): 1225-1238.


Mário Ribeiro de Moura 
Biólogo e Mestrando em Biologia Animal (UFV) 
Museu de Zoologia João Moojen




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